Margarete Freudenthal

William Outhwaite e Cynthia Hamlin

Bionota

Margarete Sallis-Freudenthal (1894-1984), socióloga alemã, foi uma figura pioneira nos estudos sobre a família e a mulher, cuja carreira acadêmica foi profundamente impactada pela ascensão do nazismo. Após iniciar seus estudos em economia, encontrou na Sociologia, sob a orientação de Karl Mannheim e Norbert Elias em Frankfurt, uma ciência “derivada da vida”. Sua tese de doutorado, um trabalho meticuloso sobre a economia doméstica e as transformações no papel da mulher nas esferas burguesa e proletária, tornou-se uma obra de referência, ainda que mais citada do que lida. Forçada a deixar a Alemanha, Freudenthal emigrou para a Palestina em 1935, onde permaneceu até o fim de sua vida, interrompendo precocemente uma carreira que prometia aprofundar a compreensão sobre como as dinâmicas domésticas se conectam às grandes transformações políticas e sociais.

Como citar

OUTHWAITE, William; HAMLIN, Cynthia. Margarete Freudenthal. In: IARA: Atlas das Pioneiras da Sociologia. Niterói: UFF, 2025. Disponível em: http://iara.uff.br/margarete-freudenthal. Acesso em: [coloque aqui a data do seu acesso].

Conteúdo do verbete

1. A pessoa no seu tempo

2. Obra, debates e influências

3. Contribuições da autora

4. Obras da autora

5. Obras sobre a autora

6. Referências

7. Recursos

Dados biográficos

Nome completo: Margarete Sophie Sallis-Freudenthal

Nome de solteira: Margarete Sophie David

Como é conhecida: Margarete Freudenthal; Margarete Sallis-Freudenthal

Nascimento: 15/08/1894

Morte: 11/1984

“O que tornou a Sociologia tremendamente excitante para mim foi o fato de que […] a pesquisa era derivada da vida, e não o contrário”.

“[A]s contribuições respectivas de marido e esposa […] determinam o grau de harmonia ou de conflito na família – subjetivamente, para o sentimento de autoestima da mulher, e objetivamente, para as relações mútuas entre os membros da família”.

1. A pessoa no seu tempo

Margarete Sophie David nasceu em 15 de agosto de 1894 em Speyer, Alemanha, mas sua família judia secular se mudou para Frankfurt am Main em 1904. De acordo com sua primeira autobiografia (Sallis-Freudenthal 1977), as motivações da família para a mudança variaram de acordo com o gênero: os homens esperavam melhores oportunidades comerciais para seus trabalhos com couro e as mulheres, uma educação melhor e um ambiente mais estimulante para seus filhos. A família também abandonou a comunidade judaica para que ela não fosse obrigada a frequentar uma escola judaica, o que pode tê-la levado a um certo isolamento social.

Em 1914, ela iniciou seus estudos universitários em história da arte em Freiburg. Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, mudou-se para Frankfurt, substituindo o curso de história da arte por economia e direito a fim de melhorar suas perspectivas de emprego. No restante de 1914, trabalhou também como enfermeira e em uma cantina militar. No ano seguinte, mudou-se da Universidade de Frankfurt para a Universidade Berlim, menos deteriorada pela guerra, com a intenção de lá concluir seus estudos. Mas isso não aconteceu: em 1917, casou-se com o advogado e professor de Direito de Frankfurt Bernhard Freudenthal, adotou seu nome e virou dona de casa. O casal teve dois filhos: Ursula, que faleceu aos quatro meses de idade, e Michael, que chegou a imigrar para São Paulo em 1945 como trabalhador rural. Como muitas universitárias judias de origem burguesa, Freudenthal não se sentia preparada para atuar como dona de casa. Por isso, desde o início de seu casamento, interessou-se pelo processo de racionalização da administração doméstica, pesquisando e publicando sobre o tema na revista da Associação de Mulheres de Frankfurt, ao mesmo tempo que auxiliava seu marido com a transcrição e edição de seus manuscritos na área do Direito (Sallis-Freudenthal, 1977).

Em 1929, após a morte repentina de seu marido de apenas 56 anos em decorrência de uma infecção bacteriana, Freudenthal passou a frequentar os seminários do húngaro Karl Mannheim e de seu assistente Norbert Elias na universidade de Frankfurt, onde terminou por se juntar a um grupo muito talentoso de estudantes de Sociologia para fazer um doutorado: “Escolhi Sociologia, junto com História e Economia […] Nunca me arrependi” (Sallis-Freudenthal 1977: 106). Os outros estudantes eram Wilhelm Carlé, Gisela/Gisèle Freund, Hans Gerth, Frieda Haussig, Natasha/Natalie Halperin, Nina Rubinstein, Ilse Seglow ethe Trudel (Honegger 1990). Hannah Arendt também frequentou os seminários (Kettler, Loader e Meja 2008). Mannheim e, em particular, Elias orientavam os alunos em áreas que já conheciam, como teatro, estudos sobre exílio, fotografia ou, no caso de Freudenthal, economia doméstica, mas um outro fator parece ter contribuído para a atração de um grande número de mulheres entre seus doutorandos: Mannheim concebia a Sociologia como uma “ciência para a vida”, e as crises vividas pelo pesquisador devem constituir o ponto de partida do método sociológico (Kettler e Meja, 1995). Como ela mesma afirmou, “O que tornou a Sociologia tremendamente excitante para mim foi o fato de que, conforme o professor Mannheim a concebia, a pesquisa era derivada da vida, e não o contrário” e, com o que qualificou como “uma inclinação e uma experiência agridoces”, decidiu-se por estudar a casa (Sallis-Freudenthal 1977, p. 106), no sentido de unidade doméstica.

Sua tese examina a economia doméstica dos domicílios em uma perspectiva histórica, comparando diferentes períodos e classes sociais, com foco nas funções das mulheres. Para complementar a dimensão histórica, Mannheim a incentivou a acrescentar uma análise empírica de cerca de 50 famílias contemporâneas, argumentando que isso beneficiaria sua carreira. “Eu naturalmente fiz o que o chefe queria” (Sallis-Freudenthal 1977: 109). Depois que Mannheim foi demitido em 1933 por ser judeu, ela concluiu sua tese com dois outros membros do corpo docente, não sem antes efetuar algumas mudanças em seu trabalho devido ao processo de nazificação das universidades:

“Um dia, no início do semestre de verão, os nomes dos fundadores judeus da universidade, que haviam sido gravados no saguão de entrada, foram destruídos. Todas as paredes foram gravadas de novo […] A universidade foi alinhada (gleichgeschaltet).  O reitor era um conhecido filósofo nacional-socialista de Heidelberg. Pude apresentar minha dissertação a dois professores idosos […] Seguindo o conselho do historiador, que tinha uma boa relação comigo, atenuei algumas passagens da introdução que pareciam muito próximas da teoria marxista. Acrescentei algo sobre os vínculos ‘determinados pelo sangue, nacionais e religiosos’ da mulher e os ‘valores eternos do casamento e da família’.” (Sallis-Freudenthal 1977, p. 123-4).

Concluída a tese e impossibilitada de conseguir um emprego na Alemanha, tentou uma posição acadêmica na Basiléia (Suíça), mas sem sucesso. Em 1934, fez uma visita exploratória à Palestina, onde acreditava que poderia viver de acordo com sua consciência como judia. Em 1935, sua mãe, que vinha de uma família profundamente assimilada à cultura européia, convenceu-a  a visitar o então já altamente anglicizado Mannheim, em Londres, em busca de uma oportunidade como socióloga na Inglaterra. A visita teve o efeito oposto ao pretendido pela mãe. Desestimulada pelo fato de que um judeu húngaro precisou passar por um processo de assimilação na Alemanha e depois na Inglaterra, encontrou-se com Elias em Paris, mas teve a impressão de que sua situação era ainda pior do que a de Mannheim (Kettler e Meja, 1993). Anos antes, em 1932, ela já havia conversado com Elias, que simpatizava com o sionismo, sobre sua sensação de “não estarmos em casa aqui na Alemanha”. Elias respondeu que, nesse caso, “a única alternativa é ir para a Palestina” (Sallis-Freudenthal 1977: 127-8). Em dezembro de 1935, Freudenthal finalmente decidiu se estabelecer por lá, onde se casou com o importador de petróleo Shaie Sallis, cujo nome incorporou ao seu, e onde permaneceu até sua morte, em 1984.

2. Obra, debates e influências

 

O principal trabalho de Freudenthal foi sua tese de doutorado, publicada na Alemanha em 1934 e reimpressa em 1986. Claudia Honegger (1991: 95) afirma que esse foi um “trabalho padrão na história da família e nos estudos sobre a mulher, embora “mais frequentemente citado do que lido”. Com o longo título “mudanças nas formas de economias domésticas burguesas e proletárias urbanas, com atenção especial às mudanças tipológicas da mulher e da família, principalmente no sudoeste da Alemanha entre 1760 e 1933”, a tese consiste em uma discussão meticulosa sobre uma variedade de tipos de famílias e tipos de mulheres.

Do ponto de vista teórico-metodológico, Freudenthal (1986) parte de uma ontologia social de raízes mannheimianas segundo a qual os seres humanos são moldados a partir de uma combinação entre suas origens sociais e suas esferas de ação. Quando a discrepância entre esses dois elementos é muito grande, duas possibilidades se apresentam: a deteriorização da personalidade ou impulso para a mudança via ação. Historicamente, esses fatores têm se expressado para as mulheres na esfera doméstica em termos das ideologias e expectativas materiais que elas levam para a unidade doméstica e, segundo, pela própria estrutura dessa unidade, conforme definida pelos padrões sociais (incluindo os do marido), pela tecnologia e pelos recursos financeiros. A partir das várias constelações históricas expressas nesses elementos, Freudenthal estabelece uma tipologia das mulheres que engloba três tipos principais: as que realizam todas as tarefas domésticas por conta própria; as que delegarem apenas o trabalho manual a empregados; as que delegam tanto o trabalho manual quanto o trabalho intelectual de gerenciamento doméstico a empregados. Neste sentido,

“entre as várias possibilidades para a mulher em relação à base material da unidade doméstica e o espaço social em que ela vive, existem inúmeros fenômenos intermediários. Cada um desses vários tipos conforma a vida mental e espiritual da família e a vida mental e espiritual da mulher. Pois cada um desses tipos demonstram em seu comportamento que […] as contribuições respectivas de marido e esposa […] determinam o grau de harmonia ou de conflito na família – subjetivamente, para o sentimento de autoestima da mulher, e objetivamente, para as relações mútuas entre os membros da família” (Sallis-Freudenthal 1986, p.6).

À medida que passa a enfatizar a família burguesa urbana em sua análise, esse terceiro tipo, que ela chama de “a dama no sentido estrito da palavra, […] quase inteiramente livre para funções puramente sociais” (Sallis-Freudenthal 1986, p.6), recebe atenção especial. A dama, um tipo construído por Mannheim a partir das obras de Max e de Marianne Weber, incorpora a contradição entre sua “situação real, que abriu a esfera pública para ela, com tempo livre e a possibilidade de contatos distantes, e “sua ideologia da domesticidade, que a proíbe de atuar na esfera pública. Incapaz  de “encontrar uma atividade satisfatória dentro ou fora de casa (Sallis-Freudenthal 1986, p.48) os efeitos da discrepância entre a situação real e a ideologia atingem seu ponto máximo. Apesar disso, Freudenthal mantém uma distinção fundamental entre as casas da burguesia urbana que contém a “dama” e aquelas cujos recursos econômicos não são suficientes para liberar as mulheres de todo trabalho doméstico. Neste último caso, os efeitos da discrepância entre situação e ideologia eram mais fortemente sentido pelas filhas e por outras parentes que não tinham mais função produtiva nas residências.

Freudenthal argumenta que era no seio desses dois tipos de mulheres que o movimento feminista (burguês) recrutava suas adeptas.  Assim, ao final do século XIX, depois que a unidade doméstica passou de unidade de produção para unidade de consumo, que o local de cultivo (Bildung) e de sociabilidade foram transferidos para o domínio público, e que o movimento feminista abalou seriamente a ideologia da domesticidade entre as mulheres da burguesia urbana (mas não entre os homens), a imagem da família harmoniosa foi perturbada:

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